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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Aplicando Padrões de Desenvolvimento para Consertar seu Sistema Favorito

Vitor Pissaia disse:

Comecei a ler hoje a monografia Design Patterns of Successful Role-Playing Games do Whitson John Kirk III, que foi citado em um dos inúmeros artigos do Remo no Dot20. Não cheguei ainda no cerne  da mesma, mas pela essência parece muito promissora.

Em sua tese ele disseca padrões de mecânicas utilizados em RPGs - tais como atributos, experiência, perícias, recursos narrativos - e, além de mostrar como são utilizados em diversos jogos, ele busca medir quais funcionam melhor em determinadas situações.

Sendo assim vou adicionar o link para o pdf para quem se interessar e futuramente, se for o caso, poderíamos discutir os dados apresentados.

Ao estudar o Design Patterns of Successful Role-Playing Games cheguei ao seguinte resumo das escolhas básicas que definem o resultado final da elaboração de um jogo de RPG de mesa:
  • A modularidade das regras, que define se as instruções do jogo são fechadas ou expansíveis;
  • Os recursos ou reservas de pontos que podem servir de válvula de escape para situações de risco de perda dos personagens, ou como meros pontos para gastar em suas características;
  • As características que definirão os personagens, que podem ser pré-definidas ou livres, graduadas ou estanques, relacionadas a classes ou a níveis ou não, ramificadas ou não, ou distribuídas a partir de uma pirâmide de prioridades;
  • A estrutura da história que pode ou não ter um final bem definido, e disputas em diversos graus, ou ainda definir a necessidade ou não de um “mestre de jogo”;
  • As formas de recompensa, seja pela simples participação, seja pelo sucesso relativo às cenas do jogo, seja pelo fracasso que impele a narrativa para a frente, relacionadas ou não às outras mecânicas de jogo anteriores.
 
Interessante que as mesmas premissas podem ser utilizadas também para se modificar jogos já existentes, o que é muito útil especialmente para sistemas de jogo “abertos”, como o D20 OGL, o Open D6, o FUZION, o FUDGE, o FATE, o 3D&T, o sistema Daemon, a 3ª Edição de Mutantes & Malfeitores ou o recém-liberado Cepheus Engine (do Traveller), por exemplo.

Utilizei dois dos padrões definidos por esse trabalho para corrigir o que considerava pequenas falhas  da 2ª edição de Mutantes & Malfeitores e deu muito certo numa mesa antiga de ficção científica entre ex-colegas de faculdade:
  • Shadowrun, por exemplo, usa Grade
    de Prioridades na criação de personagens
    Para resolver o problema do excesso de opções sem a necessidade de criar "bilhares" de arquétipos que nem seriam escolhidos pelos jogadores apliquei o padrão de Grade de Prioridades (Priority Grid), estabelecendo previamente listas de valores obrigatórios (bônus modificadores) a serem aplicados a cada atributo e salvamento, além de quantidades pré-estabelecidas para feitos, perícias e o restante em pontos de bônus para serem utilizados livremente. Além da rapidez em gerar exatamente o tipo de personagem desejado, esse método impediu que fossem gerados personagens medíocres ou excessivamente versáteis (que costumam invadir os nichos dos especialistas da equipe);

  • Mouse Guard e FATE compensam aspectos como as
    motivações das personagens com Recompensas Narrativas
    Para resolver o problema de desvinculação da narrativa em relação à personalidade de cada personagem, apliquei o padrão de Recompensa Narrativa (Narrative Reward), ampliando o número de complicações obrigatórias de cada personagem para quatro dimensões da personalidade (Fixação, Sonho, Estima e Costume) e recompensando o jogador com Pontos Heróicos sempre que uma das complicações fosse, de uma forma ou de outra, posta em jogo.
Para obter estes resultados, prestei bem atenção na aplicabilidade de cada padrão, vislumbrando o que eu queria pro meu jogo. É certo que minha versão de Mutantes & Malfeitores acabou com um "sabor" de Shadowrun (sem as pilhas de dados trava-jogo), Burning Wheel (sem os furries de Mouse Guard) e FATE (sem as rolagens frustrantes que tendem a zero e negativo), o que reuniu qualidades em troca de defeitos, sem a necessidade de começar do zero a partir de elementos soltos de vários sistemas e acabar criando um sistema caseiro "frankenstein" disfuncional.

Por isso, afora alguma prova de conceito sem algo semelhante publicado, recomendo começar com seu sistema comercial preferido para depois ir lapidando e polindo suas imperfeições, até chegar ao Sistema de Jogo ideal para sua mesa de RPG, sem deixar de experimentar outros sistemas, a título de ganho de repertório lúdico, pelo caminho até chegar lá, nem que tenha que recorrer às modalidades de "arena RPG" ou jogando solo a consultar oráculos como Mythic ou CRGE para aprender a rodar o sistema de regras, enquanto tenta de novo reunir um grupo adepto de sistemas experimentais, ainda que numa mesa online, que seja.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Como seria um RPG "civil"?

Para quem não sabe, os jogos de RPG de mesa são uma mudança da escala estratégica dos exércitos dos wargames (jogos de guerra) de mesa para uma escala tática de duelo épico entre heróis e líderes desses exércitos. Sim, o RPG é de origem "militar", ainda que criado por "civis"!

Estrategas e seus estratagemas.

Não é à toa que TODO manual de instruções de jogos RPG desde que o Chainmail virou Dungeons & Dragons (D&D) tem SEMPRE um capítulo exclusivamente dedicado ao combate, e a maioria deles ainda traz toda um lista de armas a serem adquiridas e uma tabela com suas respectivas estatísticas de guerra.

Ok, então como seria o contrário disso, um RPG civilizado, no qual o máximo de conflito fosse entre concorrentes a competir por um bom negócio, no qual mecânicas de comércio substituíssem as de combate, com poder aquisitivo em vez do dano de um ataque e valores de mercado em vez de defesas e resistência a dano.

No caso do Sistema D20, utilizado desde a terceira edição do D&D, talvez a mecânica de Riqueza (Wealth, capacidades e testes de compra e venda) do D20 Modern servisse de base para todos os testes em vez do bônus de ataque (rolagem usada inclusive nos testes de perícias "pacíficas"), das classes de defesa (CD, usadas também como "classes de dificuldade" para perícias "pacíficas"), das rolagens de dano e dos pontos de vida.

"Gostosa! Quentinha! Tapioca!", o pregão abre o dia.

Em vez de campos de batalha teríamos feiras e mercados, em vez de estalagens e tavernas que mais parecem alojamentos de quartel teríamos armazéns e oficinas ou silos e fazendas.

As mortes seriam caso de polícia e não baixas de guerra, e a mecânica de aquisição e venda poderia servir de base para a exigência e concessão de direitos de um sistema jurídico completo, com julgamentos, juízes e tribunais.

Protesto, meritíssimo!

Talvez fosse necessário um sistema de negociação, talvez uma espécie de leilão entre os personagens dos jogadores e os personagens do mestre, com fichas ("tentos") a serem apostadas ou mãos de cartas (ou rolagens fechadas em copos) a serem reveladas.

Alguns defendem o conflito nas brincadeiras dizendo que vivemos numa sociedade pacífica o suficiente e que precisamos de catarse para nossa agressividade natural, porém prefiro considerar que vivemos numa realidade tensa, insegura e sujeita a traumas a qualquer momento, e precisamos mais ainda do exercício de habilidades de consenso e troca, ainda que seja no vislumbre de um paraíso apenas jogado e ainda não vivido.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Um RPG eletrônico sobre jogadores de RPG de mesa

Acho que todo mundo que já jogou algum RPG de videogame antigo – como Chrono Trigger, The Legend of Mana ou Final Fantasy (antes de virar 3D) – e depois descobriu alguma versão do programa RPG Maker para computador, já sonhou em criar seu próprio jogo de RPG eletrônico.

O problema é que a maior parte dos que tentam usar o programa acabam apenas criando cópias clonadas de jogos famosos de fantasia medieval, limitados pela biblioteca gráfica oferecida pelo próprio RPG Maker e sem querer alterar nada no sistema de jogo que já vem pronto, apesar de ser totalmente customizável.

Mais outro Final Fantasy.


Eu prefiro ficar testando os limites das "engines" com novos conceitos e possibilidades que nunca joguei, mesmo aproveitando formatos de jogos já estabelecidos.

Dentre as ideias que tive (e anotei para desenvolver quando tivesse tempo), uma das mais recentes foi essa do título da postagem: um RPG eletrônico sobre jogadores de RPG de mesa.

Sim, foi uma das inspirações, porém o meu é mais para RPG do que para estratégia.

O personagem principal seria um mestre de RPG que, com sua equipe imaginária de criaturas e vilões, desafia grupos de jogadores de todos os tipos (power gamers, advogados de regras, etc) em suas casas, em eventos regionais, em casas de jogos e em mesas online enquanto explora novos mundos literários e cumpre missões do cotidiano que o farão se tornar um mestre cada vez melhor e talvez até um autor de suplementos ou de livros de RPG conhecido.

A cada novo manual de RPG que ele conhece, vai adquirindo novas técnicas (mecânicas de jogo) e imaginando novos universos de jogo (os planos de fundo onde se passam as batalhas/sessões de jogo). Já ao ler bestiários ele adquire o poder de invocar novas criaturas para desafiar os jogadores, e ao ler literatura de fantasia ele encontra ideias para compor seus próprios vilões, que evoluem com ele conforme vivem cada vez mais aventuras e campanhas.

Será um jogo muito foda, e uma homenagem a toda essa cultura de jogos de papel que tanto gostamos.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Programando manuais de instruções

Os jogos presenciais, como os JPs (Jogos de Personificação) por exemplo, dependem de dois tipos de recursos básicos para suas sessões de jogo: a plataforma física e o suporte antropológico.

A plataforma física de um jogo presencial inclui tanto as condições ambientais (ex.: sala com mesa e cadeiras, quadro branco, aparelho de som, etc), quanto os dispositivos (ex.: instrumentos de aleatoriedade como moedas ou dados poliédricos ou cronômetros ou baralhos, manuais de referência, formulários impressos em papel A4, etc) dos quais depende a sessão de jogo.

Já o suporte antropológico são as pessoas que participam do jogo, cujos sistemas sensório-cognitivos-motores base (seus corpos e mentes) atuarão sobre a plataforma física para que ocorra a sessão de jogo na dimensão imaginária compartilhada (na forma de convenções presumidas) de suas mentes. Mente essa que inclui os estados emocionais dos participantes, cujo estímulo ou inibição costuma definir o gênero narrativo a ser vivenciado (ex.: comédia, drama, ação, terror, etc).

E é sobre os sistemas sensório-motores base do suporte antropológico que os criadores de jogos presenciais atuam, "programando-os" por meio das instruções de jogo, para que o jogo se torne possível.

A "linguagem de programação" de jogos presenciais é composta por quatro classes de comandos (instruções) básicos:
  1. Sinta algum estímulo ambiental específico (ouça, veja, observe, leia, etc);
  2. Medite a respeito de algo específico (decida, escolha, lembre-se, imagine, etc);
  3. Expresse o pensamento ou vontade resultante (faça uma cara, assuma uma postura, gesticule, mexa num dispositivo, cante, fale, etc);
  4. Salte para outra instrução posterior ou anterior a esta.
Por exemplo, ao se jogar um JP clássico, o administrador da experiência de jogo (vulgo "mestre de jogo") após ter lido o manual do jogo (ou seja, após ter recebido os estímulos proporcionados pela leitura), descreve um cenário fictício (ou seja, expressa pelos movimentos de seus órgãos de fala) para o grupo de jogadores (que então recebem tais estímulos) e pede que descrevam como seus personagens pretendem agir (ou seja, que pensem e depois que expressem por meio da fala o que imaginaram). O administrador da experiência de jogo então percebe que um dos jogadores descreveu que seu personagem tentará executar uma ação desafiadora dentro do espaço imaginário compartilhado, então o administrador recorre às regras de teste de habilidade de seu manual (saltando então para uma instrução que requer o manuseio de dados poliédricos e a comparação com informações escritas no formulário de personagem do jogador).

A princípio pode parecer complicado, mas é uma forma de pensar a criação de jogos que permite elaborar as instruções em detalhes, além de permitir que seja escrita em diversos estilos a fim de obter experiências de leitura e de jogo distintas.