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domingo, 12 de janeiro de 2014

Motivos para vilões cometerem crimes

Fáleas sustenta que a igualdade da riqueza, ao assegurar o suprimento das necessidades, e ao impedir que se sinta frio ou fome, evita os roubos de roupas e comida. Mas a necessidade não é o único incentivo ao crime. Também há quem deseje desfrutar coisas há muito cobiçadas; e, se o desejo vai além das meras necessidades, os homens buscam o remédio no crime. Todavia, tampouco é esse o único motivo; as pessoas também desejam gozar de prazeres, sem esforços nem dores. Desse modo, existem três diferentes espécies de homens e de tratamentos: para o primeiro tipo (os que roubam para viver), tem-se de oferecer emprego e o bastante para uma vida sem necessidades; para o segundo, autocontrole (precisa aprender a conter seus desejos). Para o terceiro, caso pretenda encontrar prazeres nele mesmo, apenas a filosofia fornecerá as respostas; para todos os outros prazeres dependemos dos outros. Crimes mais graves, os homens os cometem quando seus objetivos são extravagantes, não para ver supridas suas necessidades. Quem já ouviu falar de um homem que se tornou tirano porque queria se manter aquecido? Pelo mesmo motivo, a magnitude do crime, há mais honra em assassinar um déspota do que um ladrão. Assim, podemos concluir que a Constituição de Fáleas impediria apenas os crimes menores.

Aristóteles, Política, Livro II, Parte 7


De maneira semelhante, entre os homens há variadas maneiras de viver: primeiro, existem os nômades; estes têm pouco trabalho, porque a tarefa de alimentar animais domésticos pode ser realizada com um mínimo de labuta e um máximo de facilidade; mas, quando eles precisam ser removidos para pastos frescos, os seres humanos têm de acompanhá-los, constituindo, por assim dizer, uma fazenda móvel. Depois vêm os caçadores, ou melhor, todos aqueles que vivem daquilo que pegam; alguns simplesmente tomam de outros, enquanto os demais, os pescadores, precisam morar nas proximidades de lagos, pântanos, rios ou da parte do mar onde há peixes; outros vivem do abate de pássaros e de animais selvagens. A terceira classe, a maior delas, vive do cultivo da terra.
Essas portanto são as principais formas de vida, isto é, as auto-suficientes, não aquelas que dependem do comércio e da troca. São elas o nomadismo, a agricultura, a pirataria, a pesca e a caça. Muitos vivem bem combinando alguns desses tipos, suprindo as deficiências de um com a adição de outro, no ponto em que o anterior falha; essas combinações são, entre outras, nomadismo e pirataria, agricultura e caça. As pessoas que se dedicam a isso são compelidas pelas próprias necessidades.

Aristóteles, Política, Livro I, Parte 8

Eis quatro motivos básicos para que os vilões e seus capangas cometam crimes, além de uma explicação plausível para a existência de bárbaros e salteadores. Quanto ao momento desses crimes serem cometidos, dependem da conveniência e da oportunidade (conforme pode-se inferir da leitura do livro "Crime e Castigo").

Quanto à variedade de crimes que podem ser cometidos, recomendo a consulta da Parte Especial (a partir do artigo 121) do nosso Código Penal. Isso pode ajudar o Mestre de Jogo a ter ideias mais ricas para sua sessão do que sempre o mesmo batido "assalto ao banco". Mas cuidado, Mestre de Jogo, para não incluir conteúdo muito "pesado" quando for jogar com crianças.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Programando manuais de instruções

Os jogos presenciais, como os JPs (Jogos de Personificação) por exemplo, dependem de dois tipos de recursos básicos para suas sessões de jogo: a plataforma física e o suporte antropológico.

A plataforma física de um jogo presencial inclui tanto a locação (ex.: sala com mesa e cadeiras), quanto os equipamentos (ex.: dados poliédricos, formulários impressos em papel A4) dos quais depende a sessão de jogo.

Já o suporte antropológico são as pessoas que participam do jogo, cujos sistemas sensório-motores base (seus corpos e mentes) atuarão sobre a plataforma física para que ocorra a sessão de jogo.

E é sobre os sistemas sensório-motores base do suporte antropológico que os criadores de jogos presenciais atuam, "programando-os" por meio das instruções de jogo, para que o jogo se torne possível.

A "linguagem de programação" de jogos presenciais é composta por cinco classes de comandos (instruções) básicos:
  1. Sinta algum estímulo ambiental específico (ouça, veja, observe, leia, etc);
  2. Pense em algo específico (preocupe-se, lembre-se, imagine, etc);
  3. Modifique esse pensamento de alguma forma específica (imagine se, etc);
  4. Expresse o pensamento resultante (mova-se, movimente-se, fale, etc);
  5. Salte para outra instrução posterior ou anterior a esta.
Por exemplo, ao se jogar um JP clássico, o administrador da experiência de jogo (vulgo "mestre de jogo") após ter lido o manual do jogo (ou seja, após ter recebido os estímulos proporcionados pela leitura), descreve um cenário fictício (ou seja, expressa pelos movimentos de seus órgãos de fala) para o grupo de jogadores (que então recebem tais estímulos) e pede que descrevam como seus personagens pretendem agir (ou seja, que pensem e depois que expressem por meio da fala o que imaginaram). O administrador da experiência de jogo então percebe que um dos jogadores descreveu que seu personagem tentará executar uma ação desafiadora dentro do espaço imaginário compartilhado, então o administrador recorre às regras de teste de habilidade de seu manual (saltando então para uma instrução que requer o manuseio de dados poliédricos e a comparação com informações escritas no formulário de personagem do jogador).

A princípio pode parecer complicado, mas é uma forma de pensar a criação de jogos que permite elaborar as instruções em detalhes, além de permitir que seja escrita em diversos estilos a fim de obter experiências de leitura e de jogo distintas.